A história mostra-nos o mais largo horizonte da humanidade, oferece-nos os conteúdos tradicionais que fundamentam a nossa vida, indica-nos os critérios para avaliação do presente, liberta-nos da inconsciente ligação à nossa época e ensina-nos a ver o homem nas suas mais elevadas possibilidades e nas suas realizações imperceptíveis.(...)A experiência do presente compreende-se melhor reflectida no espelho da história. Karl Jaspers

domingo, 20 de março de 2011

Globalização

A reflexão acerca da palavra globalização não é uma tarefa simples como muitos são levados a pensar. Afinal, o que é ser globalizado? A resposta a esta pergunta dada pelo senso comum (entendendo-se senso comum como algo que normalmente aceitamos sem questionar), afinal, “todo mundo” sabe que - estar globalizado é basicamente ter acesso a internet, mas será que isto da conta de explicar realmente todos os processos que envolvem na prática a globalização?
Pensar em globalização como uma onda vinda da internet por si só já faz com que a análise da questão seja iniciada de forma errada, podemos considerar, a grosso modo, que o mundo viveu pelo menos três ondas de globalização. A primeira onda iniciou-se no Renascimento, com as descobertas marítimas e a Revolução Mercantil, uma segunda onda teve inicio com a Revolução Industrial do século XVIII, vivida até recentemente quando o início da terceira onda assolou o mundo com a recente Revolução Tecnológica. É importante destacar que um fator que diferencia cada uma das ondas de globalização é a velocidade com que se propagaram, assim, a cada onda, a velocidade de circulação e amplitude foi sendo paulatinamente acelerada.
Mas nosso objetivo é tratar exatamente esta onda de globalização promovida pela acelerada evolução pela qual o mundo passa, principalmente a partir do início dos anos 90, com a explosão da internet, processo que acelerou a comunicação e encurtou definitivamente as distâncias, o destaque em distâncias é exatamente porque não se pode definir fronteiras neste novo cenário mundial, talvez o fator de maior destaque desta onda de globalização seja exatamente a “explosão das fronteiras”, sejam elas de qualquer modalidade, culturais, sócio-econômicas, lingüísticas, artísticas, sistemas produtivos, gerencias e mercadológicos, permitindo a descentralização da produção de bens e da prestação de serviços, o que ampliou consideravelmente a criação de empresas multinacionais de gigantescas proporções, com atuação em diversas partes do mundo, um excelente exemplo foi publicado em 02 de outubro de 1994 pela folha de São Paulo que reproduziu o seguinte trecho narrado por Sally Tisdale: “Moro em Portland, Oregon, onde a Nike tem sua sede empresarial (...) Precisando de tênis novos, comecei a procurar (...) Pegava um tênis atrás do outro e lia: “Made in China”. “Made in Korea”. “Made in Indonésia”. “Made in Thailand”. Comecei a pedir tênis fabricados nos EUA aos balconistas. Os poucos que não ficaram confusos me disseram que não existem tênis fabricados nos EUA. Telefonei para a Nike e falei com o responsável pelo atendimento aos clientes, ele me disse que a empresa ainda está manufaturando na Indonésia e em vários países da região. Liguei para a sede de LA Gear em Santa Mônica. Eu disse: “Os tênis que vocês produzem são fabricados nos EUA? “Fabricados aqui?” perguntou, espantada a pessoa que me atendeu. Ela me disse que seus tênis são produzidos no Brasil e na Ásia.”
Fiz questão de reproduzir este trecho porque ele nos dá uma idéia bem clara destes novos tempos do mundo como uma aldeia globalizada, ao menos na questão das grandes corporações industriais, não existem barreiras capazes de confinar produção industrial, no mundo industrial não existem fronteiras.
Outra questão necessária é analisar se a velocidade com que a globalização se processa é igual para todos. Se dividirmos os processos globalizatórios em três diferentes níveis – sócio/econômico sistema internacional e processo civilizatório – veremos que o processo sócio-econômico avança em velocidade muito mais rápida que o sistema internacional – as sociedades vivem indiscutivelmente processos e períodos históricos diferentes - ou os processos civilizatórios, o que equivale dizer que determinadas regiões serão “devastadas” por transformações tecnológicas que nem sequer desejam.
Neste contexto de expansão, os grandes agentes do processo de globalização são os países desenvolvidos, as empresas multinacionais e os organismos internacionais. No entanto, é importante saber que a globalização não é um processo orquestrado por nenhum país ou grupo econômico, mas sim, foi resultado da revolução tecnológica em curso na terceira onda de globalização. Cujos maiores beneficiados são aqueles que já haviam largado na frente em termos financeiros e tecnológicos.
Até aqui a impressão que temos é de que quando falamos em globalização estamos apenas pensando em tecnologia, recursos financeiros e grandes processos industriais, mas não é bem assim, a globalização estende-se também a áreas como a cultura. Muitas produções cinematográficas são lançadas antecipadamente fora dos países onde foram produzidas. Peças teatrais são produzidas não mais pensando em um público restrito, existe uma linguagem mundial em franca evolução. Existe um embate entre culturas locais versus culturas globalizadas, aqui a internet faz sua parte, mas não devemos esquecer que meios de transporte mais rápidos, com maior capacidade de carga, facilita as turnês mundiais de grandes espetáculos, a cultura deixa de ser local sendo invadida por toda espécie de novidades e grandes produções mundiais, será então o fim das culturas locais? Sem dúvida costumes excessivamente regionalizados agora terão uma maior dificuldade para sobreviver, mas, cultura é viva, adapta-se a cada dia e de uma forma ou de outra permanecerá existindo.
No geral a globalização é vista por alguns cientistas políticos como o movimento sob o qual se constrói o processo de ampliação da hegemonia econômica, política e cultural ocidental sobre as demais nações. Ou ainda que a globalização é a reinvenção do processo expansionista americano no período pós guerra-fria (esta reinvenção tardaria quase 10 anos para ganhar forma) com a imposição (forçosa ou não) dos modelos políticos (democracia), ideológico (liberalismo, hedonismo e individualismo) e econômico (abertura de mercados e livre competição).
Entendo globalização como um amplo processo de aproximação, aberturas, inclusões e exclusões. Não acredito em vantagens unilaterais direcionadas, se pensasse assim estaria negando vida inteligente a algumas sociedades, mas aceito maiores benefícios a alguns, mesmo porque acredito que querendo ou não todas as sociedades estarão de certa forma globalizadas, mais cedo ou mais tarde.
Em minha tentativa de definir globalização, uma expressão se sobrepõe sobre qualquer outra, “explosão de fronteiras”, mesmo correndo o risco de ter sido radical, acredito ser impossível resistir a esta terceira onda globalizante, seus recursos para expandir-se são ilimitados. Quando as fronteiras caem a onda de invasão é tão avassaladora quanto uma tsunami, e somente a custa de muita estratégia os Estados Nacionais não sucumbirão a um Estado Mundial.

Por: Celso de Almeida.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Hibridismo cultural e as Religiões afro-brasileiras

Este texto deverá relacionar a teoria do Hibridismo cultural proposta por Néstor Canclini e a formação das religiões afro-brasileiras. Para tanto é necessário começarmos por estabelecer os principais conceitos de Canclini para aquilo que ele denominou de Hibridismo cultural.
Canclini é um filósofo e antropólogo argentino, radicado no México, e sua linha de pesquisa foi a sociedade mexicana e seus processos de hibridação. Apesar de seus estudos terem sido realizados apenas na sociedade mexicana seus conceitos foram ampliados para toda a sociedade latina americana, não sendo uma prerrogativa de Canclini esta tendência totalizante naquilo referente a estudos de temas relacionados aos países latinos americanos.
E necessário contextualizar o hibridismo cultural proposto por Canclini para que a partir daí possamos dar conta do paralelo que poderá, ou não, aproximar sua proposta daquilo que entendemos no Brasil serem as religiões afro-brasileiras.
Para Canclini é fundamental a analise da diversidade americana, o que de certa maneira, produz uma especificidade relativa aos americanos, neste sentido também as religiões afro brasileiras possuem suas especificidades, o que as tornam “brasileiras” apesar de grande parte dos elementos culturais formadores estarem indubitavelmente ligados a África. A cultura de uma sociedade só pode ser explicada entendendo-se o povo que a produz, o que no caso do Brasil aponta na direção de uma palavra – mestiçagem – assim toda e qualquer manifestação cultural brasileira dificilmente deixará de carregar elementos formadores oriundos das diversas matrizes culturais participes da nossa base de formação cultural.
A noção do hibrido:
Na América Latina, por sua vez, a abrupta interpenetração e coexistência de culturas estrangeiras e dissimiles gerou processos de mesclagem que, em diferentes momentos do século XX, serão chamados de ocidentalização, aculturação, transculturação, heterogeneidade cultural, globalização e hibridismo. Tais terminologias desenvolveram-se no afã de designar os novos processos e produtos resultantes das ordens simbólicas, que, desde o final do século XV, concorreram para a formação dos países latino-americanos.
De forma bastante simplificada podemos dizer que para Canclini o processo de hibridação “caracteriza-se como o processo sócio cultural em que estruturas ou práticas, que existiam em formas separadas, combinam-se para gerar novas estruturas, objetos e práticas.” O que nos interessa é exatamente este conceito, é a partir dele que apontaremos os processos formadores das religiões afro-brasileiras. Afinal os cultos afro-brasileiros são parte de nossa cultura, e esta é nada mais que o resultado da interferência na natureza, criando códigos, sinais e comportamentos artificiais que identifiquem grupos específicos e criem condições adequadas para satisfazer suas necessidades. O universo da cultura está ligado ao cotidiano, onde se apresentam os aspectos da vida, físicos, simbólicos e imaginários. E, principalmente no que se refere à cultura popular, é difícil separar a esfera material da espiritual, o novo do velho, o sagrado do profano, o original da réplica.
Para Canclini, são justamente resultado desse hibridismo: as manifestações em suas novas configurações, os códigos novos, os elementos atualizados e sua resignificação. É a partir desta contextualização que passaremos a relacionar os estudos de Canclini com a formação das religiões afro-brasileiras.
Os escravos africanos eram proibidos de praticar suas várias religiões nativas. A Igreja Católica Romana deu ordens para que os escravos fossem batizados e eles deveriam participar da missa e dos sacramentos. Apesar das instituições escravistas e da Igreja Católica Romana, foi possível aos escravos comunicar, transmitir e desenvolver sua cultura e tradições religiosas. Vários fatores ajudaram a manter esta continuidade: os vários grupos étnicos continuaram com sua língua materna; havia certo número de líderes religiosos entre eles; e os laços com a África eram mantidos pela chegada constante de novos escravos, além da ida de escravos libertos que puderam viajar para áreas dos Yorubás onde foram iniciados no culto dos Orixás e então, ao retornar ao Brasil, puderam fundar terreiros a revitalizar a prática religiosa.
Para pensarmos em religiões afro-brasileiras utilizaremos o conceito de religião estabelecido por Clifford Geertz:
Um sistema de símbolos que atua para estabelecer poderosas penetrantes e duradouras disposições e motivações nos homens através da formulação de conceitos de uma ordem de existência geral e vestindo essas concepções com tal aura de factualidade, que as disposições e motivações parecem singularmente realistas.
Quando as religiões afro-brasileiras começaram a aparecer, o conceito de nação ganhou nova força e significado, em parte como um símbolo de transmissão de tradições religiosas locais, e em parte como uma marca da identidade étnica. As religiões afro-brasileiras constituem um fenômeno relativamente recente na história religiosa do Brasil. Por exemplo, o primeiro terreiro de Candomblé, localizado na Bahia, é geralmente situado no ano de 1830, muito embora manifestações de cunho religioso são registradas desde os anos 1600, através de documentos da inquisição. O Candomblé, a mais tradicional e africana dessas religiões, nasceu na Bahia e desde longa data tem sido sinônimo de tradições religiosas afro-brasileiras em geral.
Inegavelmente as religiões afro-brasileiras são o encontro dos elementos culturais africanos com aqueles vindos da Europa Ocidental e Oriente Médio, além daqueles nativos no próprio Brasil. Decorrente desta forma de “criação” um questionamento surge em determinados debates, teriam as religiões afro-descendentes direito de serem consideradas como religião? A resposta de Joseph Ki-Zerbo a este propósito é:
se a religião como a crença a um ser transcendente no qual é ligado pelos deveres, e por direitos, ao qual as pessoas tem contas a prestar, ao qual se fazem sacrifícios, se imploram por alguma coisa e se agradece, então há efetivamente religiões na África tradicional.( ...) Estas religiões crêem quase todas em um Deus Supremo, um Ser Supremo, que é o soberano absoluto no que concerne ao Cosmos, à humanidade inteira, à natureza com todos os seres vivos, os animais, homens, etc.
E a história da formação da religião afro-brasileira se desenvolveu de forma diversa nas diferentes regiões do Brasil. Esta diversidade se deve a muitos fatores: a presença de diversas tradições religiosas africanas; as condições sob as quais estas tradições foram preservadas não foram as mesmas. As formas religiosas do cristianismo, espiritismo, etc., com as quais se “misturaram (sincretismo religioso)” se encontraram e portaram-se de forma diversificada. Como diz Rita Amaral:
Ao panteão africano traduzido para o catolicismo (Iansã é Santa Barbara, Oxum é Nossa Senhora Aparecida), a umbanda acrescentou os preto–velhos, índios (caboclos) boiadeiros, [pomba giras], ciganos, baianos, marinheiros, divinizando e valorizando os brasileiros representantes dos grupos marginalizados.
As tradições de origem africana foram construídas, reconstruídas, inventadas, reinventadas e às vezes, abandonadas ou recuperadas conforme as necessidades e as circunstâncias do momento. Todos estes fatores tiveram conseqüências diretas ou indiretamente na formação de diversos tipos de rituais e nas várias denominações que hoje encontramos.
A religião Afro-brasileira é, aparentemente, em muitos casos, contraditória. A sua história é cheia de conflitos e contradições. E a fidelidade simultânea à África e ao Brasil (à antiga e à nova respectivamente) é, talvez, uma contradição em si. Mas é, ao mesmo tempo, uma fidelidade à própria história, da qual ambas fazem parte. Contudo, tanto a preservação da tradição, dos elementos antigos, como a acolhida de novos componentes convergem para uma única identidade da religião Afro-brasileira, a religiosidade Africana na diáspora.
Roger Bastide aponta na direção de que tudo é conservado na memória coletiva, assim sendo, a reconstituição do passado é possível, recriando-se os laços rompidos com a cultura de origem. Trata-se, pois, de preencher as lacunas, os vazios deixados pelo desenraizamento que foi a escravidão e pela “estrutura do segredo” na base da hierarquia da religião Africana; causas do desaparecimento progressivo da memória. Isso não impede a penetração do presente no passado, pois, todas as imagens da tradição não são reativadas, somente aquelas são coerentes com o presente.
Dentre as religiões afro-brasileiras destacam se no Brasil o candomblé e a umbanda e o termo afro-brasileira está evidentemente associado a idéia de uma África legitimadora, berço destas religiões. Os terreiros de candomblé se autodenominam como herdeiros de diferentes tradições africanas, muito embora o termo seja de origem banto.
Roger Bastide descreve assim o candomblé:

O candomblé é mais que uma seita mística, é um verdadeiro pedaço da África transplantado. Em meio às bananeiras, às buganvílias, às arvores frutíferas, às figueiras gigantes que trazem em seus ramos os véus esvoaçantes dos orixás, ou à beira das praias de coqueiros, entre a areia dourada, com suas cabanas de deuses, suas habitações, o lugar coberto onde à noite os atabaques com seus toques chamam as divindades ancestrais, com sua confusão de mulheres, de moças, de homens que trabalham, que cozinham, que oferecem às mãos sábias dos velhos suas cabeleiras encarapinhadas para cortar, com galopadas de crianças seminuas sob o olhar atento das mães enfeitadas com seus colares litúrgicos, o candomblé evoca bem essa África reproduzida no solo brasileiro, de novo florescendo. Comportamentos sexual, econômico e religioso formam aqui uma única unidade harmoniosa.
A umbanda é marcada pelo sincretismo de várias correntes religiosas, por isto durante longo tempo os praticantes das religiões afro-descendentes legaram a ela e a todas as práticas mais próximas de em sincretismo um termo que as depreciava, como se entre as religiões afro houvesse um grau de hierarquia (como se isto fosse possível em termos religiosos!), chamavam-nas por isto de “inferiores misturas”.
Com intenção de desmistificar a macumba , para propiciar melhor aceitação do negro na sociedade de classes. A umbanda surge no momento em que o Brasil começa a tornar-se uma sociedade mais urbano-social, e o negro como parte integrante desta sociedade também é atingido pela necessidade de mudanças, dando causa a uma re-significação de sua religiosidade. Um movimento de transformação social significa também um movimento de mudança cultural, assim sendo, algumas práticas afro-brasileiras se modificam tomando um novo significado dentro do conjunto da sociedade global brasileira.

Conclusão
A palavra reinterpretação sempre me vem a mente quando penso em religiões afro brasileiras, não me reporto a nenhuma denominação em especial análise, a conclusão a que se chega após a análise do conceito de hibridismo cultural de Canclini relacionado as representações religiosas de matriz africana e por isto chamadas de afro-brasileiras, é de que no conjunto, estas religiões em maior ou menor grau de proximidade com os cultos tradicionais africanos, são na realidade religiões brasileiras, vale lembrar que a grande maioria das religiões africanas são monoteístas, no entanto suas “descendentes” brasileiras não o são. O candomblé faz uma tentativa de manter-se o mais próximo possível de sua matriz africana, mas não consegue. E a umbanda mostra-se claramente uma religião sincrética, dando mostras claras das influencias absorvidas de outras religiões, tendo absorvido sincretismo católico, mais que isto, assimilou preces, devoções e valores católicos que não fazem parte do universo do candomblé. Cultura é sobre tudo troca reinvenção, acumulação e resignificação. Quando duas ou mais culturas entram em contato a troca de “sabedorias” é inevitável. Para a sobrevivência deste “choque” é necessária uma reinvenção constante, somente isto possibilita a manutenção de uma parte, ao menos, de uma memória cultural.
Aquilo que acumulamos é nossa cultura, saída da existência de conhecimentos passados, modificados e guardados através do tempo. Neste sentido prova-se que as religiões “afro-brasileiras” são conseqüências dos processos de hibridação por que passaram várias vertentes de ordem religiosas, a união destas, aliadas a necessidade de sobrevivência física e espiritual. Deram os moldes do que chamamos de religiões afro-brasileiras, e como toda cultura é viva, não devemos esquecer que a cada dia todos os processos culturais são reeditados e suas reinvenções são ainda constantes. Em processos culturais poderemos até encontrar de onde viemos, ou quais as origens de nossa formação, mas sua constante adaptação torna impossível detectar para onde iremos.

Por:Celso de Almeida.



segunda-feira, 3 de maio de 2010

A Partilha da África - Teorias explicativas

Ao longo da história tenta-se explicar as causas e os fatores que influíram para que ocorresse a partilha da África ao final do século XIX e inicio do XX, neste contexto iniciaremos por apresentar as diferentes teorias a respeito das causas da partilha da África.

A Teoria econômica
A princípio ninguém se opunha a idéia do caráter econômico para a explicação da expansão imperialista, mesmo entre os especialistas não-marxistas. As origens teóricas desta noção surgem em 1900 quando Rosa Luxemburgo apresenta o imperialismo como último estágio do capitalismo. A clássica forma desta teoria esta contida na afirmação de John Hobson:”a superprodução, os excedentes de capital e o sub-consumo dos países industrializados levaram-nos a colocar uma parte crescente de seus econômicos fora de sua esfera política atual e a aplicar ativamente uma estratégia de expansão política com vistas a se apossar de novos territórios”. Para Hobson esta seria a raiz econômica do imperialismo, e mesmo com a atuação de outras forças, e apesar delas, a decisão final ficaria com o poder financeiro.
Lênin salientava que o novo imperialismo caracterizava-se pela transição de um capitalismo de orientação “pré-monopolista”, no qual predominava a livre concorrência e que prosperava exportando mercadorias, para o estágio do capitalismo “monopolista”, em que o avanço depende da exportação de capitais, e intimamente ligado a intensificação das lutas pela partilha do mundo.
Nacionalistas, revolucionários do terceiro mundo, uniram-se a numerosos especialistas marxistas, na aceitação do imperialismo como resultado de uma exploração econômica descarada. Muito embora nem Lênin nem Hobson tenham se ocupado do caso específico da África, não resta duvidas de que suas observações contribuíram na analise da história da África. Não podemos descartar o fator econômico da partilha, mas, não podemos reduzi-la a este único fator.

As Teorias psicológicas
As chamadas teorias psicológicas estão divididas aqui em: Darwinismo social, Cristianismo evangélico e Atavismo social. Basicamente estas teorias apontam na direção de uma superioridade da “raça branca” em relação ao africano, o que de certa forma justificaria a colonização.

Darwinismo social
Tendo como fonte de inspiração o livro “A origem das espécies por meio da seleção natural, ou a conservação das raças favorecidas na luta pela vida”, escrito por Darwin e publicado em 1859, onde se basearam os analistas para justificar a partilha como algo natural, pois era destino da “raça superior” conquistar e dominar as chamadas “raças não evoluídas”.

Cristianismo evangélico
Para o cristianismo evangélico a teoria de Darwin representava uma grande heresia, muito embora discretamente aceitasse as implicações racistas da obra. As conotações racistas do cristianismo evangélico ficavam encobertas por “zelo humanitário” e “filantropia”, idéias muito disseminadas entre os governantes europeus no período da partilha e colonização da África. Sustentava-se desta forma a necessidade de “regenerar” os povos africanos. Apesar da provável participação de missionários nos preparativos para a colonização da África, apenas este fator não se sustenta como uma teoria geral da ação imperialista na África, haja visto que esta teoria é limitada e não contemplaria uma análise por toda África.

Atavismo social
Joseph Shumpeter foi o primeiro a explicar o imperialismo em termos sociológicos, para ele os fatores psicológicos superam os fatores econômicos na explicação da colonização da África. Segundo Shumpeter o desejo natural do homem em conquistar e subjugar outro homem, estava intimamente ligado ao processo imperialista da África. A expressão atavismo social é relacionada por uma manifestação de uma regressão aos instintos políticos e sociais do homem primitivo. Shumpeter defende que o capitalismo é antiimperialista, e que por isto mesmo a teoria econômica deveria ser descartada como possibilidade de análise da colonização.

As teorias psicológicas, podem sim conter verdades, que ajudam a compreender a partilha da África, no entanto, não conseguem explicar porque esta ocorreu neste exato momento, e não em outro momento qualquer. Apesar de não dar conta de uma explicação do porque da partilha, fornece elementos na direção de explicar porque a partilha foi possível e até considerada desejável.

As Teorias diplomáticas
Oferecem uma explicação puramente política para a partilha da África. É talvez a mais comumente aceita. Para analisá-las dividiremos em: “prestígio nacional”, ‘o equilíbrio de forças” e a “estratégia global”.

Prestígio nacional
Carlton Hayes, defende que o novo imperialismo era um fenômeno nacionalista. E que os defensores do imperialismo possuíam sede ardente de reconhecimento e prestigio nacional, assim resumido por Hayes: “ A França procurava uma compensação para as perdas na Europa com ganhos no ultramar. O Reino Unido aspirava compensar seu isolamento na europa engrandecendo e exaltando o império britânico. A Rússia, bloqueada nos Bálcãs, voltava-se de novo para a Ásia. quanto a Alemanha e a Itália, queriam mostrar ao mundo que tinham direito de realçar seu prestígio, obtido à força na Europa por façanhas imperiais em outros continentes. As potências de menor importância, que não tinham prestígio a defender, lá conseguiram viver sem se lançarem na aventura imperialista, a não ser Portugal e Holanda, que demonstraram renovado interesse pelos impérios que já possuíam, esta última principalmente, administrando o seu com redobrado vigor."

 Equilíbrio de forças
F. H. Hinsley destaca que o desejo de paz e de estabillidade europeu foi a principal causa da partilha da África. Segundo Hinsley a partir do Congresso de Berlim, as nações européias estiveram a Beira de um conflito generalizado, que somente não ocorreu por habilidade dos estadistas. No entento, havia um crescente conflito de interesses na África, que ameaçava a paz na Europa, portanto, segundo Hinsley, não havia outra forma de manter a paz e a estabilidade européia senão com a partilha da África.

 Estratégia Global
Se pensarmos em uma frase que resumisse a idéia da estratégia global poderíamos dizer que: “A grande responsabilidade pela partilha da África é dos próprios africanos.” A chamada Estratégia Global acendeu entre os especialistas em historia da África reações negativas, no entanto, foi irresistível entre historiadores não africanistas e mesmo junto ao grande público, mas, uma analise mais profunda desta tese torna difícil sua aceitação.
Os grandes defensores desta teoria, Ronald Robinson e John Gallagher, atribuem a responsabillidade da partilha aos movimentos “protonacionallistas” na África, que passaram a ameaçar os interesses estratégicos globais das nações européias. Estas “lutas românticas”, segundo os autores, teriam culminado por “forçar” os estadistas europeus a partilhar a África, mesmo contra sua própria vontade, em defesa dos interesses de suas nações no âmbito global.

 Teoria da Dimensão africana
Esta teoria admitia superficialmente os motivos econômicos da partilha, mas não como elemento principal. Nos anos de 1930, George Hardy, especialista em História colonial francesa, demosntrou a importância dos fatores africanos locais da partilha, tratando a África como uma unidade histórica.
Tratar a África apenas no quadro ampliado da Europa é um erro grave, estaríamos de certa forma, negando a existência de “vida inteligente” no continente africano. É necessário examinar os motivos da partilha do ponto de vista das sociedades africanas. Uzoigwe acredita que as teorias eurocêntricas que explicam a partilha completam-se com a teoria da dimensão africana, rejeita, no entanto, a idéia de que a conquista do continente africano era inevitável, para ele existiu um processo que iniciou-se bem antes do século XIX, e que os faotres econômicos foram vitais na tomada de decisão da conquista e partilha. Precipitados é bem verdade, pelas resistências africanas a invasão crescentes executadas pela Europa, o que teria militarizado o processo de ocupação.

Por; Celso de Almeida

Resumo do texto: Partilha eurpéia e conquista da África de Godfrey N. Uzoigwe.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Rio de Janeiro colonial – a vocação para o comércio


Inicialmente a corte portuguesa faz a opção de colonizar São Vicente, fundada por Martim Afonso. Mas, como podemos explicar este interesse? Já que não é uma localização que favoreça a extração do pau-brasil (que por lá não existia), tampouco seria pela adequação para a produção da cana-de-açúcar, afinal o nordeste possuía uma produtividade muito maior, além do que, sua proximidade com a Europa tornava o valor do frete um grande diferencial dos custos. Porem são Vicente era ponto inicial de uma trilha guarani que levava ao Paraguai estando desta forma mais próximo ao Prata. Eis ai a razão da atenção maior por são Vicente no início da colonização do sudeste.
Em 1562 a coroa portuguesa criou a Capitania Real de São Sebastião do Rio de Janeiro. Que passa a ser a base política da corroa em relação à região do Prata. Com a expulsão dos franceses de Cabo Frio em 1575, o Rio inicia sua historia como porto do comércio atacadista do tráfico negreiro. Este comércio, apesar de fazer aportar na cidade um grande número de africanos escravizados, não fazia com que o Rio de Janeiro possuísse uma grande quantidade de escravos, pois, a maioria dos desembarcados tinham como destino a região do Prata (no auge do contrabando da prata). Ressalta-se que o escambo contrabandeado de negros por prata foi uma das primeiras atividades regulares da cidade.
O comércio entre a Europa e o Oriente sempre foi deficitário para os europeus, sempre muito interessados nos caros produtos orientais, que em contra partida possuíam pouco interesse nos produtos na Europa (armas e tabaco eram exceções). Este déficit exigia que o comprador europeu realizasse vultosas transferências de ouro e prata (preferencialmente) a fim de saldar os pagamentos dos produtos orientais. Neste sentido a prata da América foi chave primordial para a manutenção deste comércio. Para Portugal a prata inicialmente entrou em seus cofres pelo contrabando de escravos e mercadorias a partir do Rio de Janeiro com a região do Prata, este comércio foi de importância capital para o Império português. O Rio recebia mercadorias das mais diversas, vindas de diferentes locais, mais não resta dúvida que a mais valiosa das mercadorias era o escravo.
Para Carlos Lessa: “a atividade econômica e a prosperidade do Rio colonial pré Geraes eram, por conseguinte, de natureza mercantil urbana. O Rio, antes de ser um centro com vida urbana, já era urbano por suas articulações externas. O porto era o principal equipamento e a razão de ser da vila.” Assim durante o século XVIII, o comércio entre o Rio de janeiro e a região do Prata deu lugar as necessidades de abastecimento das Minas Gerais. Isto aprofundou ainda mais a vocação comercial do Rio, ensaiadas desde os primeiros tempos da colonização.
O Rio foi consolidando-se como um entreposto comercial, Amaral Lapa destaca esta importância de centro obrigatório de passagem de mercadorias: “a reexportação dos artigos originários de salvador pelo porto do Rio não se destinava apenas ao Prata(…) No final do século XVIII (…) encontramos ordens para que o tabaco baiano, exportável para a Índia, passasse a ser enviado antes ao Rio de Janeiro de onde seria transportado ao oriente.”
Mas o Rio não foi somente comércio, outras atividades foram desenvolvidas; extração de pau Brasil, produção de açúcar e aguardente; de alimentos, principalmente a farinha de mandioca, criação de gado e alguma construção naval. Em 1614, o governo autorizou que o açúcar fosse utilizado como moeda para o tráfico negreiro, além disto, a produção de aguardente também era importante no comércio com a África. Sem dúvida que essas duas passagens explicam o crescimento e incentivo da atividade agrícola da cana de açúcar no Rio de Janeiro. É interessante observar que em São Vicente a atividade açucareira não prosperou, apesar de possuir condições climáticas bem semelhantes ao Rio de Janeiro, portanto o fator diferencial entre o sucesso do Rio e o fracasso de São Vicente no que diz respeito à cana de açúcar foi, inexistência de uma relação direta com o tráfico negreiro. O tráfico combinado ao contrabando terminou por gerar um fortalecimento da urbanidade e do desenvolvimento do Rio de Janeiro.
Quando ocorreu a União Ibérica o Rio de Janeiro foi amplamente beneficiado, pois com a união de Portugal e Espanha não haveria limites ao comércio com o Prata. Os portugueses, exímios pilotos de navegação no estuário penetraram cada vez mais rio adentro em suas pequenas embarcações. Este avanço se deu de tal forma que ao ser extinta a União Ibérica havia cerca de 6.000 portugueses no Peru e 25% da população de Buenos Aires era de lusitanos (LESSA, 2005), estes números servem para destacar a importância atingida pelo comércio com a região, lembrando-se que a base de todo o comércio com a região era o Porto do Rio de Janeiro.

O Rio prosperando no século XVII

Não existem muitas fontes documentais que mostrem este processo de expansão do Rio no século XVII, no entanto podemos avaliar este processo de crescimento através da análise da multiplicação de templos religiosos: Nossa senhora da Apresentação (1613), em Irajá; São Francisco da Penitência (1619); Convento do Carmo (1619); São Francisco Xavier (1625); São Cristóvão (1627); Candelária (1627); Igreja de Santa Cruz dos Militares (1628); Igreja de Nossa Senhora da Conceição (1634); Igreja da Penha (1635); Igreja do Rosário (1639); Nossa Senhora do Bom Parto (1649); Mosteiro e convento de são Bento (inaugurado em 1652); em 1659 a ordem de São Francisco cria a Província do Rio de Janeiro (agora separada da província de Salvador); Da Glória do Outeiro (1671); Convento da Ajuda (1678) e Igreja de São Roque (1697), em Paquetá, são exemplos desta proliferação.
Um grupo foi particularmente beneficiado com o crescimento da vila, os Sá, descendentes do fundador, herdaram ou capturaram para si grande parte do Rio de Janeiro. Eram os controladores do porto, na medida que a eles cabia a emissão do atestado de carga, além disto também pertencia a eles o trapiche de ver o peso, em termos de terras os Sá chegaram a possuir 50% das terras de campos dos Goytacazes, além da Barra da Tijuca, Jacarepaguá, Guaratiba e de metade da Ilha do Governador. Dentre os Sá o de maior notoriedade é Salvador Correia de Sá. Quando da União Ibérica esteve ao lado dos espanhóis sendo nomeado para cargos em Tucuman, Paraguai e Peru. Mais tarde, rompida as relações com a coroa espanhola, é nomeado para cargos de grande importância também no Império portugues, foi general das frotas do comércio do Brasil e chefiou a reconquista de Angola em 1648. Foi administrador das minas de São Paulo e São Vicente, mas ao final do século XVII, Salvador de Sá já sabe que o verdadeiro Eldorado não eram as minas, mas, o trafico de escravos. Vieira de Mello sintetiza: “Os Sá, do Rio de Janeiro eram, sobretudo traficantes de escravos, e para tal fim lhes serviam os seus estaleiros, engenhos, alambiques, as culturas de mandioca e de cana-de-açúcar.”
Em 1680 é fundada a colônia de Sacramento, e os meios para esta empreitada vem do Rio de Janeiro, tanto em forças (protetoras) como em recursos financeiros, a intenção era estabelecer um ponto de apoio ao comércio com a região do prata. No entanto os espanhóis atacam e destroem Sacramento, somente em 1682 Tavares Rondon recupera-a. Para a manutenção da colônia mais uma vez o Rio envia recursos, o centro mercantil do Rio de Janeiro exige e obtém em 1697 o controle total do comércio da colônia. O Rio financiou a política no prata, e foi de grande importância geopolítica na retaguarda da expansão Lusa na região sul. No entanto, esta opulência financeira externa não representou um aumento significativo da monetarização interna da vila. Mas como entender então que tanta riqueza externa não representasse um aumento de riqueza circulante dentro da vila? A resposta é o entesouramento, sendo assim o Rio, desde o início, comportou-se como grande caixa-forte de reservas de metais preciosos, legais ou ilegais. Grande parte destas reservas foi transformada em objetos de uso, justificando o grande número de ourives que possuía o Rio de Janeiro.
A partir do início do século XVIII intensifica-se o tráfico negreiro, este aumento tinha como objetivo o abastecimento de escravos nas Minas Gerais e o aumento da produção de açúcar, neste momento o Rio chega a ocupar a terceira posição na produção açucareira atrás de Bahia e Pernambuco. Para que possamos avaliar, segundo Carlos Lessa: “Entrou de 1736 a 1810 pelo porto do Rio de Janeiro a multidão de 580 mil escravos.” Neste período existiam 17 navios registrados dedicados exclusivamente ao comercio escravo no Rio de Janeiro. Mas o Rio não era apenas centro do comércio exterior era também o centro do comércio de cabotagem da colônia. Escravos eram trocados pelo fumo baiano e por alimentos com a região sul. O Rio centralizava o comércio atacadista da colônia. Vende escravos, alimentos e produtos manufaturados importados e em troca recebe ouro e diamantes.

A importância do porto: crescendo com a cidade e fazendo a cidade crescer

O porto foi fundamental para a vida do Rio colonial, afinal através dele o “Rio comercial” se desenvolveu, e a partir dele a cidade cresceu, foi de grande importância na vida e no crescimento da cidade, sua importância foi tanta que o local inicial do porto (região da praça XV) manteve a centralidade da cidade mesmo com o deslocamento do porto.
O porto onde se podia fundear a nau em segurança, protegida contra ventos e assaltos, onde se podia abastecê-la e realizar manutenções. Assim o Rio manteve suas características iniciais de crescimento, o porto era o centro e a partir dele o Rio se expandiu em camadas “feito casca de cebolas”, e manteve até hoje o mesmo modelo expansionista. A cidade do Rio, é um local em que o centro da cidade na verdade não está em seu centro, se assim podemos dizer, o centro do Rio encontra-se um uma de suas “laterais”, e isto devemos a forma como o Rio cresceu, fazendo de seu principal ponto seu centro (o porto) muito embora não o fosse geogaficamente.

O papel dos jesuítas na economia do Rio colonial

Desde o inicio a companhia de Jesus exerceu importante papel na vida econômica do Rio de Janeiro, desde o século XVI. A ordem fundou o colégio, no morro do castelo e operou o primeiro porto na base do morro. Muitos engenhos, como Engenho Novo, Engenho Velho, São Cristovão, Macaé, Campos dos Goytacazes e Santa Cruz, são exemplos de engenhos fundados pelos jesuítas. Em Santa Cruz e em Campos a ordem ainda desenvolveu a pecuária, vindo a tornar-se importante abastecedora de carne para a vila do Rio. Os implementos da companhia eram rentáveis, ela controlava a educação. Sua engenharia era avançada, tendo construído na região de Sepetiba uma rede de canais navegáveis, além de drenagem das baixadas, interligando a região do rio Guandu ao rio Itaguaí.
Ao assumir o governo português, o Marquês de Pombal decidiu pela expulsão dos jesuítas das terras portuguesas, em 1760, 200 padres são expulsos do Brasil e as terras da companhia foram desapropriadas e loteadas. O Rio cresceu lentamente, mas, seu crescimento dinamizou toda a região em torno da vila desde os primeiros momentos de sua fundação, o comércio se fez uma atividade presente, mais tarde a economia açucareira foi o desdobramento do capital obtido com o comércio com a região do prata e com a África.
Podemos assim dizer: O Rio foi o laboratório onde foi gerada a urbanidade do Brasil. Uma vila, até certo ponto modesta, porem forte praça comercial e marítima.

Por: Celso de Almeida.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Escravidão, construção da identidade e a Guerra de secessão dos Estados Unidos da América


A luta contra a escravidão nos Estados Unidos começou através de religiosos e da imprensa dos estados nortistas. Essas idéias de liberdade espalham-se rapidamente, pois ao contrário do Brasil, onde os escravos não recebiam qualquer tipo de escolaridade, nos Estados Unidos, a religião protestante incentivava a leitura da bíblia, o que obrigava a instrução dos escravos.
Estados do norte e do sul possuíam modos de vida diferentes, provocando em terras da colônia: Como a terra da liberdade e igualdade poderia conviver com escravidão? Nos estados do sul a firme convicção de que era impossível o convívio entre as raças e só a escravidão dava a certeza de manutenção da ordem social. Ainda mais, o sul tinha sua economia fortemente baseada no escravo seja no seu comércio, onde seu alto valor gerava bons lucros, ou no fato de que a produção nas fazendas estava totalmente vinculada à mão-de-obra escrava. Para “equilibrar” as diferenças era necessário estabelecer um “ponto de união” nacional, este ponto foi a expansão territorial, durante este processo de expansão ocorrem conflitos com o México, e a dura batalha gera heróis e mártires nacionais, e acirra a idéia do “destino manifesto” que era, de que o povo norte americano era o novo, “povo escolhido”, e que seu destino era levar democracia e liberdade para todos os povos e religiões (luz para o mundo), processo semelhante ao ocorrido com o nacionalismo europeu que “vendia” a idéia de que era necessário levar “progresso e civilização” a Ásia e a África.
Mas, a expansão territorial, como ponto de união nacional não foi plenamente alcançado, permanecia o conflito de idéias escravistas e anti-escravistas, sobre de que forma os novos territórios tratariam a questão da escravidão. Entra em cena David Wilmot que apresenta ao congresso uma proposta de fim da escravidão nos novos territórios, a “Cláusula Wilmot”, apesar de não aprovada, gera nos estados sulistas um sentimento de ira, talvez pela correta percepção de que a escravidão caminhava para um ponto de encontro com seu fim. Tentando de alguma forma salvar seu modo de vida (para os estados sulistas este foi o mais forte dos motivos para a guerra) os estados do sul passam a cogitar com mais seriedade a possibilidade de abandonar a união.

A Guerra de Secessão (1861-1865)

Mesmo com a conquista de novos territórios gerando um reforço da identidade nacional, o problema estava longe de ser resolvido, o norte permanecia em expansão industrial e urbana, e via o surgimento de uma classe media nas cidades, em oposto ao sul que permanecia com sua economia centrada na zona rural e mantinha a relação escravo e senhor, como forma de não modificar seu modo de vida, onde prevalecia uma verdadeiro regime aristocrata, que não desejava abrir espaços para qualquer possibilidade de mudança.
Em comum o norte e o sul tinham a parceria no comércio exterior e a idéia da superioridade da “raça” branca. Racismo e preconceito existiam dos dois lados, ao sul claramente escravista esta posição já é suficientemente estabelecida, e no norte onde a pressão contra a escravidão era mais forte, o preconceito manifestava-se pela ausência do negro nas esferas decisórias, é importantíssimo lembrar que ambos, tanto norte quanto o sul, não possuíam dúvidas da inferioridade “racial” negra. Portanto a guerra que se aproxima não tem uma ligação direta com da manutenção ou não da escravidão, o que os dois lados lutavam era para manter seu modo de vida, suplantando assim as idéias do adversário.
O rompimento das relações veio logo após a eleição de Abraham Lincoln, que apesar de acreditar na superioridade branca, era um anti-escravista, no entanto não possuía uma clara posição sobre uma possível abolição da escravidão, esta posição de dubiedade de Lincoln fazia com que os nortistas defensores do fim da escravidão o vissem como um conservador e como um abolicionista pelos sulistas. Na verdade o presidente era contra a escravidão nos novos territórios, e favorável a que a escravidão fosse isolada aos estados onde já existia. A grande radicalidade de Lincoln residia na defesa da união nacional, fortemente defendida por Lincoln, não admitindo de forma alguma a possibilidade de secessão.
Os estados dos sul julgavam que a expansão territorial, e o conseqüente aumento da área escravocrata, era fundamental para a manutenção do modo de vida sulista, para estes a eleição de Lincoln representava um bloqueio em suas pretensões, uma vez que a expansão da escravidão para os novos territórios encontrava oposição forte do presidente, esta “queda de braço” acabou por ser o estopim que faltava para o inicio da guerra. A Carolina do Sul foi o primeiro estado a romper com a união sendo seguida pelos demais estados escravistas, esta posição entrava diretamente em choque com o único ponto que Lincoln considerava inegociável.

Erros e acertos dos dois lados

O primeiro erro de estratégia de ambos os lados foi a avaliação do tempo de duração da guerra nortistas e sulistas julgavam que esta seria uma guerra rápida, é claro que os dois lados imaginavam-se vencedores ao final, erraram, foi uma longa guerra onde morreram cerca de 618.000 americanos, batalhas sangrentas foram travadas, atrocidades e carnificinas foram cometidas pelos dois lados, em números reais foi a guerra que mais americanos matou. O norte, já a esta altura em franca expansão industrial, estava mais aparelhado militarmente, possuía uma boa malha ferroviária, o que facilitava o deslocamento da logística necessária a guerra, além disto, possuía uma capacidade de recrutamento bem maior que o sul. O sul “aristocrata”, munido com seu tradicional sentimento de superioridade racial, avaliou que a guerra contra a “ralé” nortista seria breve e que sua vitória seria rápida. Apesar de possuir os melhores comandantes e estrategistas isto não foi suficiente contra a superioridade bélica e numérica do norte, fazendo com que a guerra se prolongasse, e longa duração da guerra trouxe mais prejuízos ainda para os sulistas, seu contingente de recrutamento era baixo, tendo em vista tratar-se de uma economia latifundiária centrada na mão-de-obra escrava e afinal, em princípio, os escravos não iam a guerra.
Neste ponto do conflito havia duas sociedades lutando por suas ideologias de vida, o sul lutando pela preservação do seu modelo de sociedade e o norte lutando para impor a não secessão de estados.
A confederação (sulistas) comete então outro grave erro, julgando que sua produção agrícola, principalmente algodão, fosse fundamental para a Europa, a confederação suspende as exportações para o “Velho continente” na esperança de que alguns países compradores pudessem vir com seu socorro, erraram, a Inglaterra, principal compradora já não dependia do algodão dos estados confederados, tendo encontrado fornecedores alternativos esta estratégia agrava a já combatida economia sulista, dificultando a manutenção do financiamento para a guerra. A economia do sul combalida pela guerra e pelas estratégias adotadas sofre então mais um duro golpe; o bloqueio comercial feito pela União (Norte) que gera desabastecimento e fome generalizada. Como atitudes desesperadas os governantes sulistas tomaram duas decisões que só viriam a agravar o quadro já existente: confisco de alimentos para a manutenção das tropas e o alistamento de escravos, o primeiro gerou a perda do apoio popular, ou o que restava dele, já a segunda feita para solucionar o grave problema das deserções só serviu para agravá-lo ainda mais, ainda contribuindo para a diminuição da produção pela falta da mão-de-obra, que agora desertava e fugia para o norte.
Neste tempo as “leis de confisco” promulgadas por Lincoln, que davam direito de posse aos nortistas sobre os bens confederados, para isto bastava que aquele que conquistasse a terra liberta-se os escravos capturados ou fugidos.
Devemos lembrar ainda que a grande parte , quase uma totalidade, dos combates ocorreram e terras sulistas o que ocasionou grande destruição nas áreas onde estes se desenvolviam, enquanto isto no lado da união o crescimento da industrialização transcorria de maneira normal.

Lincoln e a guerra

No início o principal foco de Lincoln não era o fim da escravidão, seu principal objetivo era a manutenção da união, porém, no transcurso da guerra, a política abolicionista e a grande fuga dos escravos do sul para terras nortistas acabaram por transformar a luta pela união em luta que envolvia também a abolição da escravidão.
O norte venceu a guerra graças a sua superioridade numérica, possuía uma indústria têxtil que se fortaleceu com a guerra juntamente com a indústria armamentista, houve também um grande engajamento de imigrantes que chegavam em busca da “terra da liberdade e da igualdade”, pois no pensamento de todos participar da guerra os integrava de forma inquestionável ao novo país. A guerra forneceu o elemento de identificação nacional que faltava, um modelo único de sociedade. A abolição da escravidão serviu de justificativa moral para o conflito, e a ideologia nortista, agora imposta, defendia a democracia e da liberdade o “destino manifesto” da nação estava agora consolidado para muitos historiadores somente com o fim da guerra de secessão é que realmente consolidou-se a independência norte-americana.

Por: Celso de Almeida.



sexta-feira, 6 de novembro de 2009

O clientelismo no Brasil dos oitocentos-análise.


O texto de Ivan Vellasco tem como principal objetivo realizar uma análise da sociedade brasileira e apresentar explicações para sua inaptidão para universalizar direitos e a incapacidade do Estado de construir e avalizar um contrato social baseado na realização plena da cidadania, entendendo-se cidadania como um corpo de direitos alicerçados em bases contratuais e assegurados pelo Estado. Para tal, Vellasco realiza um debate bibliográfico e historiográfico, o autor aponta pontos de convergência e discordância entre diversos autores. Levando em consideração que este texto não tenha pretensão de ser didático e sim um texto mais acadêmico, podemos observar que o vasto debate realizado entre os autores torna sua leitura instigante.
Tem-se elaborado diversos modelos na tentativa de explicar as razões do nosso atraso e constantemente a base de apoio para estas explicações esta calcada na formação da nossa sociedade, e quais os motivos apontados para que não estivéssemos incluídos no fluxo de progresso das sociedades ocidentais, esses motivos seriam frutos de nossa formação. Os elementos formadores de nossa sociedade podem estar apoiados em base herdada ou construída, mental ou social.
Alguns fatores aparecem com freqüência como causas determinantes deste atraso: herança ibérica; determinações de uma sociedade feudal com um patriarcado rural, a escravidão; como limitador de nossas ações, estrutura agrária e concentradora e uma sociedade calçada nos vínculos de dependência pessoal. Neste emaranhado de postulações existe, segundo o autor: “uma virtual inexistência de homens livres, no plano das escolhas e dos horizontes mentais, da dominação asfixiante dos senhores rural”, evidente que uma sociedade construída sobre as bases da não liberdade e da subordinação ao interesse de poucos sobre os direitos de muitos não poderia de forma alguma ser destinada ao progresso.
Diante destas constatações o texto passa a discutir as relações entre Estado e sociedade. Neste debate um fator tem sido apontado constantemente, a presença e permanência da lógica privada no interior do espaço público. Este fato seria o definidor do nosso comportamento na esfera pública, sempre inundada das relações pessoais como fator de determinação de políticas públicas, culminando assim, em uma privatização do público. Este hábito prolongado através dos tempos acaba por sugerir que este seja um comportamento seja uma espécie de conscientização da normalidade, mais ainda, surgem os defensores que afirmam que tal método seria válido. A inquietação com a possibilidade de aceitação de que é correto que o menor (privado) valha mais que o maior (público) é que determinou a escrita do texto de Ivan Vellasco. Ampliado para as novas formas de entendimento da moderna historiografia.
O texto trabalha estas questões a partir do subtítulo: Ordem privada, dependência e clientelismo: os modelos interpretativos. O texto apresenta uma gama variada de análises do pensamento social brasileiro, ancorado pelo pensamento do domínio da lógica privada, a favor do patronato e do clientelismo como formas de determinação social pode-se trabalhar com três linhas de explicação.
A primeira linha de análise esta baseada nas determinações da estrutura social como sendo definidas pelo processo de colonização, apresentadas em uma estrutura social, onde existia um Estado incipiente e fraco frente aos poderosos proprietários rurais, estes sim, com seus poderes absolutos, que tornam “suas propriedades” as instituições públicas locais para a realização de seus interesses privados, sempre na busca da obtenção e distribuição de benesses, autores como Oliveira Viana e Nestor Duarte são defensores desta linha de pensamento. Esses proprietários frente à fraqueza do Estado, que se via impossibilitado de quebrar este circulo, formavam verdadeira rede da qual o clientelismo era sua principal fonte de domínio. E neste modelo de sociedade inexiste a possibilidade de um sistema liberal, que incorpore indivíduos à cidadania, é um tipo de estrutura social marcada pela preponderância do poder privado e pela dependência e incapacidade propositiva dos dominados. É nos postulados de Oliveira Viana que Caio Prado busca embasamento para a imagem de um clã patriarcal, como descrito em seu livro, Formação do Brasil Contemporâneo, uma sociedade formada por uma categoria de senhores e de escravos, nitidamente definidas e que encontravam coerência na racionalidade do modo de produção econômica reduzida a monocultura exportadora e ao grande latifúndio escravista que nos incluiria modelo de mercado capitalista. Existiria ainda segundo Caio Prado uma categoria dos desclassificados, formada por uma massa disforme, tosca, sem lugar ou função no sistema, descartáveis para a apreensão do movimento social. Para Maria Silvia de Carvalho esta massa de “descartáveis” vagou ao longo de quatro séculos, e seu único vinculo com a sociedade se dá através das relações senhoriais de dependência, era uma massa submissa e incapaz de demonstrar interesses, mesmo porque não seriam capazes de efetivá-los, neste sentido, serviam perfeitamente a lógica da dominação privada. Em consonância com Caio Prado, Luiza Werneck afirma ainda, “desse indivíduo dependente não sai o cidadão”. Maria Silvia aponta ainda que a falta de recursos de um Estado, sabidamente patrimonializado, como um dos fatores que o impediam de implantar uma ordem social racional-legal, seria necessário portanto, uma transformação a fim de produzir um Estado capaz de separar os espaços e interesses públicos dos privados. Esta era uma visão simplista da estrutura social, e a ela Kátia Mattoso opõem-se com a seguinte afirmação: “de maneira peremptória e definitiva, a mais pobre das visões, a mais imprecisa das descrições de uma sociedade”. Destas relações de favor entre os senhores e os pobres livres surgia um contexto da sociedade, baseada nas benesses da patronagem e do clientelismo.
A segunda vertente de que o texto trata fornece como forma de estruturação da sociedade brasileira o transplante do Estado patrimonial ibérico, esta vertente da conta do transporte e reprodução das estruturas de Portugal e que aqui teriam sido reproduzidas ao longo de séculos, uma estrutura altamente centralizadora e imune a interferências de grupos sociais, até mesmo porque aqui não existiam estas forças capazes de interferir no processo. Simon Schwartzman destaca que a estrutura apresentada no modelo de transposição ibérica impossibilita a construção de uma ordem racional-legal, condição necessária a modernização e ao progresso. Neste sistema de domínio patrimonial-burocrático possuidor de um individuo desprovido de iniciativa e sem direitos diante de um Estado Centralizador, mesmo que este se apresente ineficiente. Schwartzman argumenta que apesar das deficiências o poder do Estado sustentava-se na própria máquina burocrática como forma de conseguir manter-se acima das estruturas locais, que só poderiam se expressar através de uma associação com o Estado.
Para destacar a postulação da terceira vertente interpretativa das nossas estruturas sociais destacaremos um trecho do autor; “analises acentuam nossa herança ibérica e formação social específica, que dariam as bases de uma cultura patriarcal, marcada palas relações pessoais, pelos vínculos afetivos e pelas relações familiares, todos esses avessos à lógica da universalização e indistinção que definiriam as instituições de um Estado moderno”. Esta analise é encontrada na obra Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, onde este aponta para os problemas na formação da sociedade brasileira como fruto da herança cultural ibérica, na forma do personalismo, também desenvolvido em solo brasileiro e que aqui for reforçado pela estrutura rural, contribuindo para definir as características do nosso patriarcalismo e patrimonialismo, em que se destaca de forma inequívoca a invasão da esfera publica pelo privado, em outras palavras poderíamos dizer que é o Estado tomado pela família. Holanda destaca a sociedade que tem nos laços de sangue e de coração como fornecedora de um modelo de sociedade baseada nas relações pessoais. O Estado brasileiro não foi formado com base em impessoalidade e na universalidade, fatores que caracterizam a formação do indivíduo moderno. No Brasil “cada individuo afirma-se ante os seus semelhantes indiferentes a lei geral (...) atento apenas ao que o distingue dos demais”. Nossa cordialidade , não iguala, mas distingue, distancia, hierarquiza. Roberto Damatta é outro autor que se põem em consonância com os escritos de Sérgio Buarque de Holanda, para ele uma sociedade formada através deste processo inspira constantemente “total desconfiança nas regras e decretas universalizantes”. Para Damatta o apadrinhamento e o compadrio solapam a universalidade dos direitos e deveres, o que em outras palavras impedem o estabelecimento da cidadania, que não teria se formado entre nós por falta de um Estado capaz de mostrar autoridade e solidariedade de forma tradicional.
Clientelismo, Estado e redes de poder
José Murilo de Carvalho destaca a maneira pela qual este tema é tratado, em uma espécie de senso comum, é um tema que todos têm conhecimento e do qual se sentem confortáveis para abordar. Segundo o autor, o conceito de clientelismo implica “um tipo de relação entre atores políticos que envolve concessão de benefícios públicos (...) em troca de apoio político”. O clientelismo se apresenta com variados matizes, ora aparecendo como uma manifestação do mandonismo local e suas variantes outras vezes parecem um fenômeno bem próximo ao “coronelismo”, ora se oponha a este como um correspondente urbano. Na obra de Richard Graham, este aborda o clientelismo como fruto de um sistema que superou na política brasileira ao longo do século XIX, não é, portanto, surpresa que os “homens do império” passassem a maior parte do tempo na construção de redes de clientelismo. Essas redes, propagadas e acionadas, através das eleições tornavam uma corrente capaz de ligar a corte até o local mais remoto do Território Brasileiro. Já Jose Murilo de Carvalho provoca uma reviravolta no conceito de clientelismo, afirmando que ao contrário do que se possa imaginar o desequilíbrio da balança política pendia para o lado dos senhores rurais. Ao que parece o Estado era cliente do senhoriato rural.
Outras linhas de análise vêm sendo adotadas, linhas estas que apontam para uma possível rede de clientelas nucleadas na família e ampliadas através de alianças, que garantiriam coesão política e econômica.
Autores como Hespanha e Xavier, participantes das reflexões mais recentes a cerca da historiografia brasileira, apontam para uma nova forma de entender estas relações, baseadas na “economia do Dom ”. Estes mesmo autores salientam que as redes clientelares não se resumiam a relações de dominação e submissão, ao contrário, eram fundamentadas na ambigüidade, como uma geradora de “redes de interdependências”. Não havia somente a lógica do controle unilateral e do interesse, havia um jogo de reciprocidade, direitos, deveres e compromissos, que acimentavam uma rede social, que de outra forma não se sustentaria.
O texto mostra que as relações clientelistas devem ser pensadas em uma lógica de reciprocidade onde ocorria uma ajuda mútua e que as ações dos envolvidos, ou dos que acreditam dela participar, era determinada pelo laços da parentela e da aliança. Hespanha e Xavier mostram nesta afirmação a síntese de seus pensamentos sobre o clientelismo: “na relação patrão-cliente exige-se uma contensão de parte a parte, numa busca incessante de justiça (...) esse tipo de relação é todo menos arbitrária”.
A partir das preposições apresentadas, Ivan Vellasco procura trabalhar no sentido de realizar uma análise das idéias, ele destaca o evidente posicionamento dos autores que situam o fenômeno das redes clientelares como parte de uma lógica estruturante das relações sociais produzidas no antigo regime, uma sociedade historicamente definida e que mais tarde ganharia um tom espúrio e ilegítimo. A economia do Dom como forma de equilíbrio entre os poderes locais e centrais, privado e Estado, em uma lógica de alimentação recíproca desde as primeiras décadas dos oitocentos.
Não podemos ficar atrelados a esta ou aquela corrente; Estado Forte, Estado Fraco, Poder local suplantando o Estado Central, tudo isto na realidade fez parte do processo de estabelecimento desta sociedade em formação, que por fim foi forjada no calor das negociações. Por um lado o período colonial fica caracterizado com o predomínio do privado sobre o poder público, das redes de clientela sobre a lógica das instituições de governo, a partir da Constituição de 1824, e o desenvolvimento inicial do Estado-Nação gera o início de um longo processo de polarização e ao menos tendencialmente, de inversão.

Análise do texto de Ivan Vellasco: Clientelismo, ordem privada e Estado no Brasil oitocentista: notas para um debate.

Por:Celso de Almeida.

As notícias em Paris: Uma pioneira sociedade da informação no Séc. XVIII



 Podemos afirmar que a Paris do Antigo Regime possuía um peculiar modo de propagação de notícias, oficiais e extra-oficiais, as notícias oficiais publicadas em jornais, com forte crivo da censura e uma publicação voltada para atender aos interesses do governo, mas, sem dúvida as notícias que “corriam” de forma extra-oficial, são as mais interessantes, por não estarem sob o jugo da censura, eram mais livres e recheadas de temas que na maioria das vezes eram contrários aos interesses da monarquia. Então poderíamos perguntar: como se ficava sabendo das notícias em Paris por volta de 1750? Se a leitura de jornais não trazia grandes novidades (censurados pelo governo) o “jeitinho parisiense” era recorrer a conversas informais, como por exemplo, os que aconteciam sob um grande e frondoso castanheiro localizado no coração de Paris, apelidado de Árvore de Cracóvia. Como um poderoso imã a árvore atraía boateiros (nouvellistes de bouche) que espalhavam de boca em boca as notícias sobre os eventos correntes. As notícias, geralmente sobre os bastidores do que ocorria no poder, eram dadas com a “certeza” de sua veracidade, eram “sempre” informações vindas por informantes de dentro do próprio Palácio de Versalhes. O próprio governo mandava à árvore seus espiões, para saber do que se falava nas ruas, governos estrangeiros enviavam mensageiros, para colher e também implantar boatos. Mas, não era somente na Árvore de Cracóvia que ocorriam tais reuniões; outros centros nervosos também transmitiam “rumores públicos”: cafés, bulevares, tulherias e o Jardim de Luxemburgo, eram outros dos pontos de transmissão das notícias.
Os parisienses tinham um ávido apetite por informação, que era coletada e comparada a fim de descobrir o que de fato estava acontecendo. Famosos salões de Paris também se encarregavam desta rede de transmissão de notícias, mas acima de tudo na Paris destes tempos, ter acesso a notícias significava postar-se na rua e manter ouvidos atentos.
Por mais atípico que pareça as diversas formas de circulação de notícias, quer fossem: oral, manuscrita e impressa, feita clandestinamente era, muito provavelmente, a mais “confiável” no que tange a realidade do que estava acontecendo, pois através de jornais e gazetas autorizadas, as notícias que circulavam eram somente aquelas que interessavam ao governo. Os censores do governo não somente reprimiam a heresia e a sedição, também protegiam privilégios, pois que, alguns jornais possuíam “privilégios régios” para a cobertura de certos assuntos, e qualquer novo periódico não poderia se estabelecer sem pagar aos inspetores do comercio de livros. Muitas vezes a própria imprensa francesa exagerava ao falar do servilismo dela mesma, existiam numerosos periódicos, muitos deles escrito em Francês, fora da França, que forneciam informações sobre os eventos políticos, especialmente durante o reinado relativamente liberal de Luís XVI. Mas claro, se algum desses se aventurasse a criticar o governo era imediatamente liquidado pela máquina repressora do regime, seja pela repressão policial, quer pela exclusão do correio . Portanto jornais existiam, mas traziam poucas noticias, e contavam com pouca confiança do leitor, mesmo os impressos fora da França.
A imprensa estava longe de ser livre, era subdesenvolvida, se comparada à imprensa holandesa, inglesa ou alemã no mesmo período. Este subdesenvolvimento, no entanto não pode ser creditado de forma alguma a capacidade do público leitor, uma vez que, esse público era bastante curioso a respeito dos negócios públicos e começava a tomar consciência de si próprio como uma nova força política, começava assim a surgir a “opinião pública”, mesmo ainda sem direito a voz na condução do governo. Existia, portanto uma clara oposição entre uma população sedenta de notícias e um governo de formas absolutistas que mantinha sob a imprensa pesada mão de ferro.
Não se pode observar os meios de propagação de notícias na França do antigo regime de forma anacrônica, não havia os meios que hoje existem, no entanto isto não significava simplicidade ou falta de meios, era diferente, no entanto existia uma densa rede de comunicação formada por meios e gêneros hoje esquecidos. Notícias transmitidas em mensagens sobrepostas e entrecruzadas; faladas, escritas, impressas, desenhadas e cantadas. De todas, a de mais difícil observação e análise para o historiador é comunicação oral, porque esta quase sempre desaparece no ar. Mas felizmente para o historiador o antigo regime francês era um estado policial (entenda-se “policial” a maneira do século XIX, como administração municipal) e esta polícia era sensível à importância da opinião pública, mantida sob constante vigilância por espiões em todos os lugares onde s pessoas se reuniam. Claro está que não se deve levar em conta literalmente o que está escrito nos arquivos policiais. Eles tinham um viés embutido, que muitas vezes revelava sobre seus autores do que sobre as pessoas observadas.
Os documentos que dispomos na Bastilha é uma amostra tendenciosa, claro, mesmo porque a polícia não prendia as pessoas que falavam a favor do rei, desta forma devemos levar em consideração que importantes instrumentos que nos possibilitariam análises podem ter sofrido distorções. A análise destes documentos também revela que assuntos como a vida sexual da corte era assunto que fornecia vasto material para os “fuxicos”, e que a opinião pública nem sempre estava contra os acontecimentos da corte, havia momentos de júbilo e de revolta. Muitas histórias eram contadas utilizando-se personagens fictícios. As canções também foram um importante meio de transmissão de notícias, muitas delas originavam-se na corte, mas terminavam por alcançar as massas populares, os parisienses possuíam uma forma peculiar de lidar com as canções, eles compunham novos versos e utilizavam velhas melodias, de acordo com os novos acontecimentos que desejavam retratar. Nesta Paris podia-se mesmo dizem que havia “uma monarquia absoluta temperada por canções” neste ambiente, uma canção envolvente poderia facilmente espalhar tão rapidamente quanto um rastilho de pólvora, e à medida que se espalhava seu crescimento era inevitável, pois a ela eram acrescentadas novas palavras e versos: muitos destes versos, escritos em pequenos pedaços de papel e trocados nos cafés, ainda podem ser encontrados em “caixas, guardadas na Bibliothéque de L’arsenal em Paris, tendo sido confiscados por inspetores de polícia aos prisioneiros da bastilha. Pelo episódio que envolveu o conde de Maurepas, ministro da marinha e amigo íntimo do rei, pode-se ter uma noção d proporção do “sucesso” que alcançou este tipo de midi na Paris absolutista, Maurepas se serviu das canções para regalar ao rei, levando a estes canções que falavam tanto de seus inimigos, como também aquelas que falavam dele mesmo. Isto sempre divertiu Luis XV, até o dia em que Maurepas deixa vazar em forma de canção um episódio ocorrido dentro dos aposentos do rei, onde só se encontravam o rei, sua amante (Mme Pompadour) juntamente com uma prima sua e o próprio conde, evidentemente Luis chegou à conclusão obvia de que quem havia “vazado” os acontecimentos fora o conde, tendo o rei providenciado sua dispensa do cargo e seu banimento de Versalhes.
As letras das canções eram de tal forma, acrescidas de palavras e versos e passadas de um para outro, que a polícia de Paris pode constatar a impossibilidade de chegar do verdadeiro autor de qualquer uma delas, como no exemplo da música “monstre dont La noire furie” (Monstro cuja negra fúria), ofensiva a Luis XV, mas que a polícia depois de 14 detenções cada uma produzindo um relatório diferente, se viu impossibilitada de determinar seu autor.
Fossem cantados ou recitados de memória estes versos não tardavam a chegar às gazetas manuscritas e mais tarde as impressas. Tal importância ganhou este tipo de propagação das notícias que dois longos poemas que falavam de forma hostil a história do reino de Luis XV, não tardaram a tornar-se “best-seller” na década de 1780. Ao discutir o surto de canções e poemas em 1749, a obra comentava:
“Foi nessa época vergonhosa que o escárnio geral pelo soberano e sua amante começou a tornar-se manifesto, depois continuou a crescer até o fim do reinado [...]. Esse escárnio irrompeu pela primeira vez em alguns versos satíricos sobre a infâmia cometida contra o príncipe Edward [Charles Edward Stuart, ou Belo Príncipe Charlie, o Jovem Pretendente, que foi preso em Paris em 10 de dezembro de 1748, e expulso do reino em conformidade com exigências britânicas aceitas pela França na paz de Aix-la-Chapelle], nos quais Luís XV é interpelado numa passagem que o compara com aquele ilustre exilado:
Il est roi dans les fers; qu’êtes-vous sur le trône?
[Ele é um rei sob grilhões; quem és tu no trono?] “

Todas as figuras públicas eram satirizadas pelos versos e canções, as estrofes cobriam todos os grandes eventos e os assuntos políticos entre 1748 e 1750, a versificação era tão simples que novos alvos de zombaria podiam facilmente ser acrescentados a medidas que os eventos se desenrolavam. É impossível aquilatar o tamanho desse “corpus”, mas podemos ter idéia quando se constata as evidências encontradas nos arquivos em Paris. E a conclusão é de que se tratava de uma mídia de gigantescas proporções, portanto, impossível de ser parada ou detida. Hoje ainda se pode ter acesso nas principais bibliotecas de paris, a um grande número de versos que a aproximadamente 250 anos formavam canções, claro que com o passar do tempo os sons se perderam.
Ao estudar os meios de comunicação da Paris do antigo regime não podemos pensar em separação, deve-se entender como um processo que não importava a origem da mensagem, mas sua ampliação e de que maneira alcançava o público, uma propagação que não reconhecia territórios ou classes sócias, até mesmo porque nesta Paris todos os públicos se cruzavam por toda parte. É imperativo também se realizar uma análise da maneira que eram compreendidas as notícias, esta compreensão envolve recepção e difusão. A toda esta profusão de notícias, passadas por canções ou poesias escritas em pequenos pedaços de papel, muito dificilmente poderíamos chamar de história séria, talvez o mais correto e tratá-los como folclore político, no entanto não podemos ignorar este tipo de “noticiário”, é correto levá-los a sério, mesmo porque talvez ele tenha sido fundamental no colapso do antigo regime francês.
Os assuntos dos Libelles e Chroniques Scanda Leuses variavam pouco basicamente a corte fornecia o assunto que se fazia necessário a publicação como pode observar neste trecho:
“a corte está sempre afundando mais e mais na depravação, os ministros estão sempre enganando o rei, o rei está sempre deixando de cumprir seu papel como chefe de Estado, o poder do Estado está sempre sendo mal utilizado, e o povo está sempre pagando o preço pelas injustiças cometidas contra ele – impostos mais elevados, sofrimento crescente, mais insatisfação e impotência diante de um governo arbitrário e todo-poderoso” (...) “a polícia era uma série interminável de variações sobre um mesmo tema, decadência e despotismo.”

Para tentar explicar todo o processo é necessário remontar a renascença onde se desenvolveu a arte do insulto e da boataria, que com o passar dos anos modificou-se até culminar com esta vasta efusão de Libelles sob Luis XV e Luiz XVI. Certo é que: Libelles, fuxicos, poemas, canções, publicações, anedotas, todos se entrelaçavam em um sistema de comunicação tão poderoso que foi decisivo para a queda do regime.

Conclusão
O texto possui uma escrita contagiante para qualquer um com o pela forma de propagação de notícias, trata-se de uma forma de mostrar a história no ponto de vista oposto ao oficial, mesmo assim o autor consegue implementar veracidade, utilizando-se de fontes históricas, e nos mostra que seja em Paris do séc XVIII ou no mundo globalizado do século XXI é impossível conter a disseminação das notícias, mas na Paris do Antigo Regime a oralidade foi por certo o maior dos veículos de notícia, tanto que, a partir deste instante fez surgir uma importante forma de expressão de um povo, a “opinião pública”.


Análise do texto de Robert Darnton:As notícias em Paris: Uma pioneira sociedade da informação.

Por: Celso de Almeida.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

A UNIVERSIDADE E A FORMAÇÃO DE PROFISSIONAIS PARA O SÉCULO XXI

Os caminhos para a excelência pessoal e profissional passam, necessariamente pela educação. É especialmente nos ambientes universitários, que os sujeitos despertam suas consciências para a necessidade de se tornarem competentes, com o objetivo de se diferenciarem enquanto profissionais. Percebe-se aí, um caminho fértil para os educadores contribuírem, de modo relevante, para que os futuros profissionais capacitem-se na arte do saber, do saber fazer, do saber ser e conviver (DELORS, 1996).

Este artigo aborda a temática do ensino superior, alertando para a importância de se planejar e organizar um currículo que complete, no mesmo grau de importância, conteúdos conceituais, procedimentais e atitudinais, visando à formação de profissionais competentes, capazes de atender às exigências do seu entorno social.

O ensino superior tem figurado, atualmente, como tema polêmico e vem suscitando uma série de questionamentos e reflexões sobre o papel da universidade na formação de profissionais habilitados a lidar com a complexidade dos desafios que emergem, na sociedade mutante deste novo século. O mercado de trabalho vem mostrando-se, cada vez mais exigente, em qualquer área de atuação. Não basta ter conhecimentos científicos elaborados e saber aplicá-los, de modo comum, do jeito que todo mundo faz. É preciso ir além, demonstrar criatividade para inventar um jeito próprio, fugir do que é tradicional. Essa é uma aprendizagem que a universidade precisa desafiar seus acadêmicos a construir. Para isso, precisará vencer alguns limites, alargar horizontes e passar do ensino marcadamente teórico, acadêmico, para o ensino e a aprendizagem de conteúdos procedimentais e atitudinais.

Na concepção de Zabala (1999) a aprendizagem de conteúdos procedimentais implica em aprender a fazer, na prática, aquilo que assimilou na teoria. Bem se sabe que o mercado de trabalho, as organizações que geram empregabilidade procuram um perfil de profissional, que, seguramente, não é aquele que apresenta o maior numero de títulos. É o que consegue ser capaz de demonstrar o que sabe e, em igual grau de importância, mostrar o que sabe fazer com os conhecimentos construídos, bem como, mostrar as competências do ser, as vivencias que lhe são proporcionadas no ambiente da organização.

Seguindo essa linha de raciocínio, indaguemo-nos: - Como estão sendo trabalhados os conteúdos procedimentais e atitudinais nas nossas universidades? Certamente os conteúdos conceituais estão sendo muito bem elaborados e ensinados. Mas isso, somente, não capacita os estudantes a exercerem a profissão escolhida, com chances de sucesso.

Demo (1999), ao discorrer sobre os desafios modernos da educação, questiona, de forma contundente, o papel da universidade. Na sua concepção, a universidade não pode se constituir num campus repleto de salas de aula, mas num lugar onde se fomenta a produção própria qualitativa, o “saber-fazer” e não o seguimento de caminhos desvendados e trilhados por outros, como mera copia da produção alheia. Se é da pratica que emerge a teoria, é com ela que os estudantes precisam ser desafiados a estabelecer vínculos concretos para a aprenderem a fazer.

A realidade difere um pouco de como se apresenta na teoria. Ela nos surpreende com seus imprevistos, suas peculiaridades, já que resulta de um processo vivo, dinâmico. Nenhum padrão se adapta nesses contextos. É por isso que nossos estudantes precisam fazer vivencias que lhes permitam descobrir sua potencialidade e seu grau de limitação, podendo assim, ir aparando arestas, aperfeiçoando métodos, processos, amadurecendo raciocínios, melhorando concepções sobre padrões valorativos e ir transformando comportamentos e atitudes. Isso é aprender.

Demo (1999) sinaliza que educação deve significar, na sua essência, emancipação, ou seja, a possibilidade de se aprender a fazer com autonomia e condena aqueles professores que só socializam o conhecimento, passando informações sobre a matéria, denominando-os de “auleiros”. A crítica de Demo mostra-se mais aguda, quando anuncia que: “Quem permanece no mero aprender, não sai da mediocridade, fazendo parte da sucata” (ibidem, p.131).

O que o autor nos traz, como ponto de reflexão, é que a vida acadêmica precisa ultrapassar o âmbito do conhecimento teórico. Alem da qualidade formal, técnica, igualmente imprescindível, é que nossos acadêmicos aprendam, no exercício da pratica, como ser um profissional de excelência, preparando se para lidar com exigências de uma sociedade em continuo e irreversível processo de mudança.

Demo define produtividade como a capacidade de pensar e intervir na realidade e alerta para o fato de que a universidade precisa preparar seus estudantes para consolidar essa competência nos espaços que vem urgindo no mundo moderno; ressalta que a formação desses sujeitos deve contemplar “visão e ação sempre renovadas em termos de inovação cientifica e tecnológica, nas quais, capacidade laboratorial, experimental, é crucial” (1999 p.132).

Há que se refletir, igualmente, sobre a importância de se trabalhar com conteúdos atitudinais. Esses, não são conteúdo só para educação básica, como se pensa comumente. O processo de amadurecimento e evolução do ser humano não obedece a ciclos específicos; ele é permanente, gradativo e acontece por meio da educação. Como formar bons profissionais se não cuidarmos da formação das suas atitudes? Não há como. É fazer trabalho pela metade.

Se a universidade almeja realizar um processo ensino-aprendizagem de relevância para o contexto social onde se insere, os educadores precisam desafiar-se a pensar formas de trabalhar conteúdos atitudinais. Esses futuros profissionais precisam aprender que conviver num ambiente de trabalho implica em respeito a regras, atitudes de cooperação e não de competição, em disciplinar a vontade para fazer escolhas que só a médio ou longo prazo lhes trarão retornos satisfatórios; precisam aprender a desenvolver inteligência emocional através do autoconhecimento, para construírem uma auto-estima saudável e desenvolver resiliência, para superar seus próprios limites diante de frustrações e de situações-problema que terão de experimentar, inevitavelmente, no curso da vida. Para ser educador, é preciso entender de gente, buscar nos estudos da psicologia, fundamentos para saber lidar com o comportamento humano; pesquisar e descobrir dinâmicas, textos, músicas, documentários, filmes e outros meios que sirvam como ponto de partida para a discussão, reflexão, formação de conceitos e de atitudes em relação a estes conteúdos, tão valorizados na composição de um perfilo de profissional para a propriedade do século XXI.

Conforme sugere Oliveira (1997, p.17) “Devemos analisar as implicações de uma visão global da pessoa humana em seus aspectos racionais, afetivos e emocionais, pois precisamos nos livrar dos paradigmas despersonalizantes e puramente racionalistas pelos quais a pessoa humana não é tratada em sua globalidade, mais aparece como peça de uma engrenagem”.

A discussão sustentada ate aqui pretende servir como uma proposta de reflexão, de análise, de possíveis planos coletivos e individuais Ed ação, em âmbito de universidade. Todos precisam chamar, para si, a responsabilidade de contribuir na formação de profissionais competentes no domínio do saber, do saber-fazer e do saber-ser junto aos outros, abrindo possibilidades para uma convivência enriquecedora, de trocas salutares, inteligentes, que contribuam para o crescimento das pessoas e das organizações.

Cabe um chamamento aos estudantes da academia. É importante lembrar-lhes que cada escolha implica numa renúncia. E, a escolha por ser um profissional que fará a diferença no mercado de trabalho, implica em empreender esforço próprio, disciplinar a vontade, não ficar à espera que milagres aconteçam tão-pouco “pegar carona” na vida de outros, na dependência eterna da famigerada “cola”, ou pedindo para que acrescentem seu nome ao trabalho do qual sequer conhece o conteúdo. Dignidade, respeito pessoal e profissional constrói-se desde o início da formação. Luft (2004, p.107) defende uma tese interessante: “Acredito que viver é elaborar, é criar: são inevitáveis as fatalidades, doença e morte. O resto – que é todo o vasto interior e exterior – eu mesma construo. Sou dona do meu destino. É mais cômodo queixar-me da sorte em lugar de rever minhas escolhas e melhorar meus projetos”.

É comum alguns estudantes encontrarem inúmeras justificativas para não fazerem, bem feito, aquilo que deles se exige. Essa postura não soma. Subtrai. Profissionais excelentes, que se destacam que são referencias na sociedade, não se construíram, assim, por acaso ou por influencia de qualquer traço de herança genética. Mas porque lutaram contra seu próprio desanimo, enfrentaram seus medos, construíram crença na sua capacidade, no poder divino que habita em seu interior e foram à luta, sem poupar-se, sem terem pena de si mesmos. Vale refletir sobre o alerta de Luft (ibidem, p.39) que vem reforçar esta reflexão: “Não é só culpa dos outros se ficamos truncados. Em cada estágio podermos colorir algum traço, algum ponto, alguma cor no projeto de quem pretendemos ser”.

Eis o importante desafio que se Poe diante de educadores, de acadêmicos e da universidade, como um todo: empreender esforços e reunir o máximo de entusiasmo, de desejo interior para saber mais, fazer melhor e trabalhar para fazer aflorar todas as potencialidades do ser, educando-se e colaborando na educação dos outros para que todos se formem profissionais capazes de fazer a diferença, tornarem-se referencia e fazerem-se necessários, imprescindíveis onde quer que atuem.

“Há homens que lutam um dia e são bons. Há outros que lutam um ano e são melhores. Há os que lutam muitos anos e são muito bons. Mas há os que lutam toda a vida e estes são imprescindíveis.” (Bertold Brecht)

Referências

DELORS, Jacques et al. Educação, um tesouro a descobrir. Relatório da comissão internacional sobre educação para o século XXI. Lisboa: Asa, 1999.

DEMO, Pedro. Desafios modernos da educação. 8. Ed. Petrópolis: Vozes, 1999.

LUFT, Lya. Perdas e ganhos. 19. Ed. Rio de Janeiro: Record, 2004.

ZABALA, Antoni. Como trabalhar os conteúdos procedimentais em aula. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1999.

Resumo

Autora: Marisa Crivelaro da Silva